História de Cacela Velha: da Antiguidade ao Século XX (com Fontes)

História

História de Cacela Velha: da Antiguidade ao Século XX (com Fontes)

História

A história documentada de Cacela Velha: ocupação romana, a cidade islâmica de Hisn Kastala, a conquista cristã, o terramoto de 1755, o forte reconstruído e as escavações arqueológicas. Com fontes para cada facto.

Cacela Velha parece pequena e tranquila, mas por baixo das casas caiadas há mais de dois mil anos de ocupação: um posto fenício-cartaginês, uma base militar romana, uma cidade islâmica com um poeta famoso na corte de Córdova, um castelo disputado na Reconquista e um forte reconstruído depois do terramoto de 1755. Este artigo reúne o que está documentado sobre essa história, com as fontes de cada facto, para separar o que é registo histórico do que é lenda ou tradição oral.

Sempre que uma data ou um facto vem de uma única fonte secundária, ou é referido como lenda ou hipótese, isso é dito no texto. A lista completa de fontes está no final do artigo.

Resposta rápida: a linha do tempo

  • Pré-história e período púnico: vestígios de ocupação humana na região desde a Pré-História; a povoação terá servido de entreposto a fenícios e cartagineses.
  • Época romana: Roma escolheu Cacela como base militar; há fornos romanos preservados no local.
  • 713–1240: domínio islâmico. A povoação, conhecida como Hisn Kastala ou Qastalla Darraj, foi sede de um território mais importante do que Tavira nessa época.
  • 1240: conquista cristã do castelo, entregue à Ordem de Santiago.
  • 1283: D. Dinis outorga foral a Cacela (17 de julho).
  • Século XVI: construção da atual Igreja Matriz, renascentista.
  • 1755: o terramoto de 1 de novembro danifica gravemente a igreja, a fortaleza e a Casa da Câmara.
  • 1770–1794: reconstrução do forte que hoje se vê.
  • 1775: extinção do concelho de Cacela; o território passa para a nova Vila Real de Santo António.
  • 1833: desembarque de uma força liberal de cerca de 2500 homens, durante a Guerra Civil.
  • 1996: o núcleo histórico é classificado Imóvel de Interesse Público.
  • 1998–2022: escavações arqueológicas revelam um bairro islâmico e uma necrópole medieval cristã.

Antes da história escrita: da Pré-História a Roma

A ficha oficial de classificação da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) resume assim a ocupação mais antiga da região: o primeiro povoamento da península onde se ergue Cacela terá acontecido na época pré-romana, ligado ao mar e às condições naturais da lagoa, e "Cúneos, fenícios e cartagineses ter-se-ão instalado neste local, transformando-o num entreposto comercial importante e em estreita relação com o Mediterrâneo". Depois, "o Império Romano escolheu Cacela para sua base militar" (DGPC).

A Wikipédia acrescenta que Cacela "constituiu ponto de passagem para navegadores gregos e fenícios" e que, segundo alguns autores, terá sido Cunistorgis, a antiga capital do povo dos Cúneos — uma hipótese, não um facto estabelecido (Wikipédia). Dessa fase romana restam no local fornos de cerâmica, hoje visíveis como vestígio arqueológico.

Hisn Kastala: a cidade islâmica (713–1240)

Cacela passou para o domínio muçulmano em 713, durante as campanhas de Abdalazize ibne Muça no Algarve e no Baixo Alentejo. Integrada na cora (distrito) de Ossónoba (Faro), a povoação era conhecida por vários nomes árabes — Hisn-Kastala, Qastallat Dararsh, Cacetalate ou Cacila — e ficou sob o domínio do clã dos Banu Darraje (ou Banu Daraj) (Wikipédia).

Defendida por um castelo dos séculos IX–X, de carácter marítimo-agrícola, Cacela viveu o seu apogeu no período islâmico. Segundo a DGPC, "Cacela foi a sede de um vasto território circundante, cujo estatuto era superior ao de Tavira" (DGPC). Foi nessa época que viveu o mais famoso natural de Cacela: o poeta Ibn Darraj al-Qastalli, nascido em 958 (ano 347 da Hégira). Entrou ao serviço do governante de Córdova Almançor por volta de 992, depois de uma composição poética improvisada, e mais tarde serviu a corte da taifa de Saragoça; morreu em Dénia em 1030 (Wikipédia; Tahiri, 2009).

Uma comunidade cristã moçárabe também viveu sob domínio islâmico: em Fonte Salgada, nos arredores, foi identificada a lápide do bispo Iulianus, datada do século X, que a DGPC descreve como de "qualidade sem paralelo no território nacional", próxima da erudição moçárabe de Sevilha e Córdova (DGPC).

Escavações no Largo da Fortaleza, em 2007, identificaram os restos de uma medina do século X — Qastalla Darraj —, com o que terá sido a casa de um cádi (magistrado islâmico), sete silos para cereal (cinco deles de grandes dimensões, uma raridade arqueológica) e cerâmica doméstica. O bairro foi abandonado antes da conquista cristã de 1240 (Notícias de Arqueologia; CIIPC).

A conquista cristã e o foral de D. Dinis (1240–1283)

A tradição local, registada na Wikipédia como lenda e não como facto histórico, conta que D. Paio Peres Correia conquistou Cacela em 1240 após acordar tréguas com os mouros; sete cavaleiros cristãos teriam sido depois mortos à traição, o que teria levado D. Paio a atacar e conquistar também Tavira (Wikipédia). O que está documentado é que a fortaleza foi um dos últimos castelos do Algarve a ser tomado aos mouros e que D. Afonso III doou-a à Ordem de Santiago, que ali promoveu obras — parte da muralha construída nessa época está hoje submersa (DGPC). A administração das terras do termo ficou a cargo de um comendador nomeado pela Ordem (Wikipédia).

Em 17 de julho de 1283, D. Dinis outorgou foral a Cacela, documento hoje conservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, na Chancelaria de D. Dinis. O concelho de Cacela incluía então parcelas das atuais freguesias do Azinhal e de Odeleite (PlanetAlgarve; Wikipédia).

Da decadência medieval ao terramoto de 1755

Ao longo do século XIV, alterações na linha de costa e ataques de piratas levaram a população a abandonar a vila e a dispersar-se pelas quintas do interior, tendência que se terá acentuado a partir da época dos Descobrimentos. Um documento de 1465 refere que já não havia casas além do castelo, onde morava o comendador; um desenho de 1617 mostra um núcleo com fortaleza, igreja, casas do prior, casa da câmara e pelourinho, com os habitantes a viver fora da vila. De 1621 é a "Relação e Traça da Vila de Cacela", de Alexandre Massai (Wikipédia).

O terramoto de 1 de novembro de 1755 atingiu Cacela com força. Um relato da época, publicado numa "Relaçam do terramoto do primeiro de Novembro do anno de 1755", descreve os danos: "na Villa de Cacela (…) se arruinou a Matriz, a Misericordia, as Cazas da Camara; e á Fortaleza visinha cairam os baluartes com tanta violencia, que arrojaram á praia os canhoes montados" (Wikipédia). Uma "Carta topográfica dos baldios e terras incultas do termo da vila de Casella", de 1775, mostra o núcleo urbano já reconstruído, com igreja, fortaleza, pelourinho, casa do padre, câmara, cadeia e casas do governador.

A igreja de origem medieval e o forte reconstruído

A atual Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção conserva, num pequeno portal lateral voltado a norte, um vestígio gótico do edifício medieval original, do final do século XIII. As fontes não são totalmente coincidentes sobre a data exata da construção que hoje se vê: a Wikipédia indica que foi edificada em 1518 sobre as ruínas medievais (Wikipédia), enquanto a DGPC atribui o desenho a André Pilarte — mestre ativo no Algarve entre 1517 e 1551, também autor da Igreja da Misericórdia de Tavira e da Matriz de Alcoutim — e situa a obra "pelos meados do século XVI" (DGPC). O portal principal é renascentista, com bustos esculpidos de São Pedro e São Paulo.

O forte teve uma história mais atribulada. A fortificação foi reconstruída no século XVI por ordem de D. João III ou de D. Sebastião — este último terá inspecionado pessoalmente as obras em 1573. Em 1617 as muralhas do lado da arriba já estavam arruinadas, e em 1750 a fortaleza encontrava-se em ruínas, antes mesmo do terramoto de 1755, que a danificou ainda mais. A reconstrução, ordenada em 1770 pelo governador do Algarve D. Rodrigo de Noronha, só ficou concluída em 1794, sob o governo de Nuno José de Mendonça e Moura, conde de Vale de Reis, com base numa planta de 1784 do engenheiro José Sande de Vasconcelos. É essa a estrutura de planta estrelada, com dois baluartes voltados ao mar, que hoje se vê — pequena, pela escassez de espaço no local (Wikipédia – Fortaleza de Cacela; DGPC). A igreja foi reconstruída em 1795 (Wikipédia).

Da extinção do concelho às Guerras Liberais (1775–1833)

No âmbito de uma reforma político-administrativa do Algarve, o concelho de Cacela foi extinto em 12 de dezembro de 1775, por decreto de D. José I, e o seu território uniu-se ao da recém-criada Vila Real de Santo António; o priorado de Cacela já tinha sido transferido para lá no ano anterior. Por volta de 1784, terá sido criada a freguesia de Cacela, por desmembramento da freguesia de Vila Real de Santo António — a própria Wikipédia assinala esta data com um ponto de interrogação, por incerteza (Wikipédia).

Em 24 de junho de 1833, em plena Guerra Civil portuguesa, desembarcou perto de Cacela uma força liberal de cerca de 2500 homens comandada pelo duque da Terceira, junto à Torre Velha, no extremo leste da freguesia. Depois de atravessar o Algarve e o Alentejo iludindo o exército miguelista, essa força entrou triunfante em Lisboa exatamente um mês depois, a 24 de julho (Wikipédia).

Do posto da Guarda Fiscal à classificação como património (1897–2010)

Já no século XX, em 1897, as instalações do forte passaram a ser ocupadas pela Guarda Fiscal, cujas funções são hoje asseguradas pela Brigada Fiscal da GNR; o edifício continua afeto a essa força e não está aberto a visitas (Wikipédia – Fortaleza de Cacela).

O processo de classificação do núcleo histórico começou com uma proposta do então Instituto Português do Património Cultural (IPPC), de 23 de outubro de 1986, com parecer favorável do Conselho Consultivo do IPPC em 30 de dezembro de 1986 e homologação da Secretária de Estado da Cultura em 15 de janeiro de 1987. A classificação formal como Imóvel de Interesse Público só foi publicada dez anos depois, pelo Decreto n.º 2/96, no Diário da República de 6 de março de 1996, abrangendo o conjunto do forte, a Igreja Matriz e a ermida de Santa Rita. Em 2010, foi definida a respetiva Zona Especial de Proteção, pela Portaria n.º 83/2010 e pela sua republicação como Portaria n.º 264/2010 (DGPC).

O que a arqueologia revelou (1998–2022)

Entre 1998 e 2001, escavações no Poço Antigo puseram a descoberto um bairro residencial islâmico da primeira metade do século XIII, de época almóada, com casas organizadas em torno de um pátio central lajeado, com cozinha, alcova e latrina. Por cima desse bairro foi identificada uma necrópole cristã medieval, com 56 sepulturas (CIIPC).

Uma nova campanha, em julho de 2018, coordenada por Maria João Valente (Universidade do Algarve) e Cristina Tété Garcia (Direção Regional de Cultura do Algarve), com equipas da Universidade do Algarve e da Simon Fraser University (Canadá), encontrou mais 11 sepulturas nesse mesmo cemitério, datado de forma aproximada dos séculos XV–XVI — entre elas uma com uma concha de vieira, um possível sinal de peregrinação ou de pertença à Ordem de Santiago. O projeto de investigação, com um orçamento total na ordem dos 300 mil euros, estava previsto prolongar-se até 2022 (Público, 2018).

Cacela Velha hoje

O núcleo histórico de Cacela Velha está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1996, tem uma Zona Especial de Proteção desde 2010 e fica dentro do Parque Natural da Ria Formosa. Não há construção nova dentro do núcleo, o forte continua a cargo da GNR e fechado a visitantes, e a povoação faz parte do percurso oriental do Caminho Português de Santiago (Wikipédia). Para visitar hoje, veja o guia o que ver em Cacela Velha e como chegar a Cacela Velha.

Fontes

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